O sentido e os desafios do desenvolvimento comunitário

O Desenvolvimento Comunitário ou Local pode ser entendido e posto em prática através de dez ideias fundamentais.

Em primeiro lugar, é um processo de mudança (o que deriva da palavra "Desenvolvimento"), no sentido de provocar transformações, com vista a aumentar o bem-estar, a qualidade de vida, a felicidade e o "bem viver" das pessoas.

É um processo definido, não em abstrato, mas que se concretiza numa comunidade territorial de pequena dimensão, caraterizada a partir de uma identidade comum, de uma solidariedade potencial de ação coletiva e de uma pretensão a uma autonomia relativa.

Visa encontrar respostas para necessidades fundamentais não satisfeitas dessa comunidade e identificavas e reconhecidas por ela.

Conta, para isso, antes de mais, com as suas próprias capacidades e recursos (endógenos), contribuindo nomeadamente para os desocultar e valorizar.

Implica a adoção de pedagogias e de metodologias de participação e de "empowerment" (e autonomização), individual e coletivo, das pessoas e dos grupos dessa comunidade, dando particular atenção e prioridade aos/às "sem voz", aqueles/as que normalmente ninguém ouve nem representa.

Mobiliza também necessariamente recursos e capacidades exógenas de vários tipos (humanos, financeiros, materiais, equipamento, informações e conhecimento), desde que não inibam nem substituam os endógenos, mas antes os fecundem.
Assume sempre uma perspetiva integrada, sistémica e interdisciplinar, e não setorial e fragmentada, dos diagnósticos, dos processos e das respostas.

Exige trabalhar em parceria, ou seja, articular diagnósticos, perspetivas, decisões, tarefas, recursos e avaliações entre as instituições e serviços que intervêm localmente.

Pretende um impacto tendencial em toda a comunidade, e não apenas nalguns grupos ou setores, em dois sentidos: ir chegando às necessidades e problemas de todos/as e mobilizando e interessando todas/os nas respostas.
Compreende uma grande diversidade de pontos e necessidades de partida, respostas, processos, ritmos, protagonistas e resultados, dado que cada comunidade é específica e única.

Embora todos estes pontos sejam importantes, um é particularmente decisivo, porque dele depende a essência comunitária do Desenvolvimento: a participação e o "empowerment", que implicam capacitação, autonomização e poder deliberativo, por parte das pessoas da comunidade, ao nível individual e coletivo (grupos em que se organizam), porque se confunde amiúde participação efetiva (em todas as fases do processo, em particular na conceção, decisão, planeamento e coordenação) com simples informação ou auscultação não vinculativa à comunidade ou ainda com a sua adesão aos projetos e atividades concebidas pelos/as técnicos/as.

Rogério Roque Amaro
Investigador e Especialista em Economia Social e Solidária e Professor no ISCTE