Testemunhos

Olhando o Niassa a partir de quem é o Niassa

Ensonado pelo balanço do Toyota Hilux, vou apertando o pensamento ao peso das pálpebras que me parecem crescer sobre os olhos. Sigo pelos trilhos do Niassa, ao lado de Paulino Paissone, o supervisor geral das Escolinhas Comunitárias do Niassa. Basta-me um rápido do olhar para saber que estou no norte de Moçambique: centenas de bicicletas vão cruzando com a nossa viatura. Vão e vêm carregadas, simulando carreiros de formigas. Transportam lenha, peixe seco, carvão e outras coisas que tal.

São produtos para venda e revenda, sinais da vitalidade dessa outra economia que escapa aos planificadores económicos. Alguns consideram que essa economia rural é um assunto menor. Mas é esta economia que garante a sobrevivência da maioria dos moçambicanos. No Niassa há também lugar para alguns casos de empreendimento. Mas tudo à minha volta parece apontar numa direcção: o progresso só será real se andar ao ritmo das suas próprias pernas. Mesmo que essas pernas vão lavrando por entre lentas areias das picadas.

Volto a olhar pela janela e volto a surpreender-me: quem pedala não são apenas homens. Também as mulheres dão ao pedal. Elas cozinham, lavam a roupa, vão à machamba, vendem no mercado e percorrem quilómetros de bicicleta mas também a pé, com o seu mundo inteiro num divino equilíbrio à cabeça. Com um filho às costas, outro na barriga e outro pela mão que, se for uma menina, e não precisa ter mais de 7 anos, já leva também um pequeno mundo à cabeça e talvez um irmão pequenino atado às costas.

Entretanto o nosso Toyota Hilux vai passando com urbana arrogância por entre os ciclistas como se fosse um emissário de um mundo reconhecido circulando entre meandros de um universo informal e invisível. Mas é este formigueiro que me desperta para uma dinâmica que necessitamos entender. O Niassa é a maior das províncias moçambicanas. Dezasseis em cada 100 quilómetros quadrados do território vêm do Niassa. A densidade populacional, contudo, é a mais baixa de todas as províncias.

Olhar o Niassa a partir de quem e o Niassa

A viatura pára. O homem de bicicleta que seguia colado ao nosso carro também acaba por parar. Na falta de travões usa o pé para travar a roda traseira do velocípede. Desmonta o selim e retira da cabeça o velho cofió, em sinal de respeito. Está coberto de poeira e suor. Por instantes pensei: o homem deve odiar estes veículos luxuosos, fabricadores de pó, que passam a maior parte das vezes sem sequer um aceno. Agora sou eu que interrompo o seu caminho. Mas o homem reúne toda a sua paciência e educação para responder às questões. A meu pedido, vai apontando para os carregamentos que lentamente atravessam a ponte. Este que vai passando leva carvão feito de madeira de mbaga. Mais além, segue um saco cheio de mangas, essa fruta que durante meses acalma a fome na província. Pouco mais adiante e com um esforço tremendo, um rapaz com não mais de 12 anos carrega mandioca e mamões. E aquela outra bicicleta que ali vem transporta uma armadilha para apanhar peixe.

Arranco novamente. Crianças fazem também parte do cenário. Toda a floresta em volta lhes pertence. Conhecem as árvores uma a uma e de todas sabem contar-nos a história. Procuram nelas o visco para caçar as aves, e no meio de todas sabem conhecer qual delas produz o mais denso e o mais fatal para as suas vítimas. As folhas da palmeira entretêm-nas horas a fio enquanto a sua parte mole e o bambu se transformam, nas suas mãos, em gaiolas, bicicletas e outros objectos rudimentares.

E por mim vão desfilando um mundo de coisas tantas e tão várias que eu vou tendo a minha lição particular de Moçambique, nessa manhã em que decidi apear-me dessa fortaleza “blindada” que se dá pelo nome de viatura climatizada e simplesmente fazer conversa com esse homem, meu principal mestre para olhar o Niassa a partir de quem é o Niassa.

Luís Santiago
Cuamba, 2016-2017