Testemunhos

Tenho em mim todos os sonhos do mundo

Por esta altura, a fasquia dos 200 dias em missão por terras santomenses ficou para trás. Sucessivamente, o tempo escorre e se esgota em dias que parecem ter muito pouco de 'leve-leve'.

Longe vai o tempo em que o pinheiro e o eucalipto eram referências e em que o mar era de tal forma gelado e revolto que te permitia sentires os 'ossos a estalar' só de olhar.

Atravessar a estrada deixou de ser um desafio, fruta-pão, jaca ou mamão fazem parte do ementa e até já consigo aceitar, a algum custo, que uma laranja possa ser verde... Frutas que, fruto do tempo, são agora a minha referência de 'normal'.

Por entre hospitalidade, acolhimento e simpatia, aqui e ali, vou ouvindo: "Este já é meio santomense." Algo que me deixa naturalmente orgulhoso e lisonjeado, mas que o meu fiel patriotismo se encarrega de resolver.

Tudo isto mostra o quão bem somos recebidos em missão, fruto da abordagem de longa duração e da forma de estar e ser dos Leigos muito própria e muito próxima das populações a quem servimos.

Então, com este sentimento de quem está no sítio certo no tempo certo, dirijo-me para o Cascado Lopes, campo de futebol no Bairro da Boa Morte que acolherá a II Edição do Torneio Juvenil de Futebol de 7, onde mais importante do que a dimensão ou o formato do campo é o tamanho dos sonhos que esse mesmo campo dá aso.

crianças a prepararem-se para jogo de futebol

À boleia do “12 de março desportivo”, usando as aprendizagens da edição anterior, o Grupo Comunitário da Boa Morte decidiu organizar novo torneio de futebol juvenil, devido à falta de iniciativas desportivas no bairro, promovendo assim a prática desportiva saudável, a cooperação e a coesão social entre os mais novos.

Largas foram as horas de preparação, entre reuniões, computador e visitas ao terreno, nas quais repito interiormente palavras como: capacitar, coordenar, refletir ou organizar; acreditando que dou passos firmes para ensinar a pescar ao invés de dar o peixe.

Assim, chega o aguardado dia em que mais de 90 jovens disputam um simples torneio de futebol, mas um torneio em que é possível sonhar.

Num piscar de olhos, depois de algumas confusões típicas em solo africano prontamente refletidas e resolvidas pela organização, o torneio está na final e as duas equipas que a disputam num impasse para determinar o vencedor.

O jogo está, minuto após minuto, empatado sem que nenhuma equipa logre inaugurar o marcador. Após um jogo tático e disputado, a solução veio através dos penalties onde cada jogador gritava: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo".

criança a marcar penalty

Com a vitória, vem a consequente explosão de alegria e aqui tudo ganha ainda mais sentido, nomeadamente o trabalho do Grupo Comunitário. É sem dúvida uma bênção e uma alegria poder conduzir os jovens a uma experiência que de outra forma não lhes seria proporcionada, mas mais ainda capacitar para que gerações futuras não cresçam órfãs deste tipo de iniciativas.

Também eu "tenho em mim todos os sonhos do mundo". Um deles: "Procurar deixar o mundo um pouco melhor do que o encontrei."

Continuamos juntos.

André Patrício

S. Tomé e Príncipe, 2016-2017