Testemunhos

Colhemos de Ti, semeamos por Ti

Quando cheguei a Benguela, há 6 meses atrás, encontrei o projeto Epongoloko Lyukãy, composto por um grupo de mulheres com muita força de vontade e sede de mudança, e destinado a tantas outras, ainda oprimidas e descrentes quanto ao seu valor e poder na sociedade.

Encontrei o negócio de sabão, formado por um grupo de senhoras que se encontram quatro manhãs por semana para a produção de sabão: carregam os baldes com água, coam o óleo, preparam a “receita” e mexem a bacia por mais de uma hora. No final, dividem o sabão do dia anterior entre todas e registam o que cada senhora leva para vender bem como o dinheiro que trás do sabão já anteriormente vendido. Conversam, partilham a vida e brincam. Hoje, este é um negócio com “fama” no Bairro da Graça e que vai crescendo ao mesmo tempo que estas mamãs crescem também na sua gestão e autonomia.

Encontrei também um outro grupo de senhoras, estas por sua vez ainda a frequentar a formação promovida por este projeto. Um grupo de mulheres, jovens e adultas, com muita vontade de aprender e ter novas experiências, o que fez com que ainda hoje continuem juntas, mesmo após o fim do processo de formação, em novembro, para investir num negócio de artesanato e costura. Hoje aperfeiçoam técnicas aprendidas, desenvolvem novos produtos, trocam experiências e conhecimentos, sempre movidas pelo desejo de aprender cada vez mais.

 Formacao Costura

Mas a história do Epongoloko Lyukãy começa muito antes daquilo que eu hoje consigo observar. Para trás estão longos períodos de aproximação e entrega para ganhar a confiança desta parte da comunidade – as mulheres – tão esquecida e subvalorizada; estudos, diagnósticos e inquéritos para ouvir as suas necessidades; negociação de parcerias; formações; apoio na criação de pequenos negócios; …

Tudo isto exigiu tempo e paciência, esforço e dedicação. Trabalho que eu não tive, mas que contribuiu para os frutos que vemos hoje. Frutos que eu colho diariamente, de um trabalho que não fui eu que semeei.

A proposta dos Leigos para o Desenvolvimento pode implicar isto mesmo: dedicares-te a lançar sementes, de frutos que poderás não colher, mas que entregas e confias que alguém, depois de ti, irá colhê-los. E eu tenho colhido muito. Esta proposta, para a qual nos preparam durante o período de formação em Portugal, é um convite (difícil) à prática da generosidade de quem semeia mas também da humildade para quem colhe, pois o projeto que abraço não é meu, mas nosso, e os frutos também. É um convite (difícil) a experimentar a gratuidade, pois aquele que semeia deve fazê-lo livremente, sem estar amarrado ou dependente da satisfação de ver os frutos do seu trabalho, pois poderá não vê-los.

Aqui na Missão de Benguela é tempo de colher mas também de semear. Hoje temos a decorrer um 3º grupo de formação com o objetivo de levar o desenvolvimento pessoal, social e económico a cada vez mais mamãs do Bairro da Graça. Para além da vontade de aprender e do sonho por melhores condições de vida para as suas famílias, estas mulheres movem-se também pelo desejo de, terminada a formação, poderem continuar ligadas ao projeto, “partilhar tudo o que for ensinado e ajudar outras mamãs do nosso bairro”.

Mas é também tempo de felicitar e agradecer. Estamos em abril e é por isso tempo de felicitar os Leigos para o Desenvolvimento por mais este aniversário. É tempo de agradecer a tantos Leigos, agora anciãos, que dedicaram e dedicam um tempo da sua vida a semear com os LD. É tempo de agradecer a tantas comunidades locais, solos férteis, que acolheram estas Missões. É tempo de agradecer a tantos que acreditaram neste desenvolvimento, mesmo sem precisar de ver os seus frutos, e contribuíram para que estas sementes brotassem. É tempo de desejar “muitas felicidades e anos de vida”.

E porque colhemos de ti, semeamos também por ti: por ti que és mulher em busca de mudança, por ti comunidade do Bairro da Graça, por ti LD, por ti África, por ti Humanidade.

Apesar de incertos em relação aos frutos que virão, resta-nos a certeza de que, no final de contas, colhemos de Ti, e semeamos por Ti.

Joana Lagos
Benguela, 2016-2017