Testemunhos

Um mar de contradições

Aqui em Cuamba, o clima é na maioria das vezes sufocante. Mal saio do banho frio, começo a transpirar. Durmo debaixo de uma rede mosquiteira para evitar ser picado por mosquitos infectados com malária e outras doenças, mas mesmo assim não consigo evitar formigas e, por vezes, outros insectos na minha cama.

Na minha casa de banho passeiam baratas, vários aracnídeos e sapos. Noutro dia quase assei um lagarto na torradeira. Ao almoço e ao jantar a variedade não abunda e o frango assume quase invariavelmente o papel principal. Todas as manhãs, por volta das quatro, um galo canta para me acordar – isto se por acaso não passei a noite em claro, motivado pela matilha de cães que se junta à nossa porta.

De manhã quando saio para o trabalho a estrada… bem, é uma maneira de nomear os trilhos esburacados, que fariam ímpios, agnósticos e ateus invocar a protecção de S. Cristóvão e, no limite, encomendar a alma ao divino. Na época das chuvas, então, os pneus afundam-se no matope1, ou patinam, faz-que-anda-mas-não-anda, a cada tentativa de “desenterranço”. Já perdi a conta às vezes que me socorri de auxílio para seguir viagem. Isto quando não se transformam em pântanos de matope e que tornam impossível ir a qualquer lado.

Pessoas a atravessar ponte inundada

Tudo isto soa a queixas mas não são. Gosto da minha cama e de me deitar esgotado debaixo do mosquiteiro no fim de um longo dia. Gosto da minha casa, incluindo todas as criaturas que por lá passeiam. Gosto dos meus longos passeios até às comunidades onde se encontram as escolinhas e do regresso a casa, de dia ou já de noite, faça chuva ou sol. Gosto da festa que cada criança me faz de cada vez que me faço entender em macua2. Gosto da chuva de Cuamba, que bate com força e tudo limpa. Gosto das minhas refeições, tão bem preparadas pela Beatriz, nossa empregada que muito estimamos. Gosto dos miúdos que me vêm bater à porta de casa para conversar ou apenas para cumprimentar. Gosto de chegar a casa carregado do pó vermelho que o vento se encarrega de soprar em todas as direcções e de ter a sorte de ter um chuveiro à minha espera.

Estas aparentes contradições espelham bem o que é o Niassa e Cuamba em particular. Um enorme paradoxo: uma beleza espantosa, de cortar a respiração, justaposta a uma pobreza e a uma desolação imensas, sobretudo nas comunidades onde se situam as nossas escolinhas.

Durante os primeiros tempos aqui aprendi muito, desde comer a alimentos que nunca tinha visto a saudar cada pessoa com quem me cruzo na rua. Coisas que pareciam tão simples constituíram desafios. Por exemplo, não fazia a mínima ideia de como amanhar um peixe para o jantar (ainda hoje tenho dificuldades) ou de qual era o preço justo por um lugar de tomates no mercado local, de modo que alguém tinha de me ensinar. Também não sabia preparar feijões frescos, um elemento fundamental da alimentação local. Em Portugal, limitava-me a comprar uma lata na mercearia, despejava os feijões numa caçarola, punha-a ao lume e comia-os minutos depois. Não é assim que se cozinham feijões que não saíram duma lata. A Beatriz, tinha-me dito que era preciso cozer os feijões, o que não parecia ser muito difícil. Não fazia ideia de quanto demorava o processo de cozedura, de modo que, na primeira noite, pus a panela ao lume às sete, convencido de que poderia comê-los pouco depois. Conclusão? Não houve feijão para o jantar nesse dia…

E é através de todos estes (e outros) desafios e contradições mas também através das pessoas que se cruzam comigo, que Deus me abre os olhos para todo um mundo novo e toda uma nova maneira de viver, e, talvez mais importante ainda, para toda uma nova maneira de viver os Evangelhos. Para onde quer que olhe, as necessidades são inúmeras, a miséria e o sofrimento estão em cada esquina e suplicam por satisfação, remédio ou alívio. E embora compreenda que nem sempre posso satisfazer, remediar ou aliviar, posso participar. Posso participar da dor de alguém e sentar-me ao lado dessa pessoa e saber. Conhecer as suas provações e dificuldades e com uma palavra, um gesto ou até com um simples okhala3 posso sempre participar.

 

Luís Santiago

Cuamba 2016/2017

 

[1] lama

[2] dialecto local

[3] ficar