Testemunhos

Quanto carrega uma simples formiguinha?

Quem já passou por São Tomé e Príncipe saberá que, para além de praias e roças, há neste pedaço de paraíso perdido no Atlântico um imenso legado cultural entregue a gentes genuína e simples. Aqui, enquanto se cruzam paisagens com cores que escapam ao melhor dos smartphones e que te convidam a deixares para trás quaisquer tecnologias e te limitares a contemplar, sentes o fervilhar de um povo que caminha dançando e que vibra com a mais pequena manifestação cultural. Sítio onde, por mais dura que a vida seja, batuques, instrumentos improvisados ou o soar de uma flauta reúnem multidões…

Dos que já admiraram este pináculo da natureza e a sua biodiversidade de fauna e flora, os mais afortunados tiveram a oportunidade de contactar com uma espécie muito particular e valiosa: a Formiguinha. Não se deixem iludir pelo diminutivo, de pequeno nada tem.

A Formiguinha da Boa Morte é um dos mais importantes grupos de tchiloli, sendo este um dos legados culturais mais valorizados em São Tomé e Príncipe.

Para os menos informados, o tchiloli consiste numa representação teatral cheia de cor, baseada num texto quinhentista de Baltasar Dias e reinventada pelo povo santomense, que recria a Tragédia do Marquês de Mântua e do Imperador Carlos Magno ao som de percussão e pitús – flauta típica do tchiloli.

Numa trama recheada de calúnias, traições e paixões, o Imperador Carlos Magno, ao descobrir o homicídio que o seu filho engendrara para conquistar a mulher do seu melhor amigo, fica perante o dilema: condenar o seu único filho pelo crime cometido ou salvar a sua corte evitando o conflito com o Marquês de Mântua.

Assistir a tudo isto ao vivo é um privilégio. Um espetáculo contagiante e hipnotizante.

Este é o legado que a Formiguinha tem vindo a perpetuar anos após ano, desde 1956.

Tchiloli

Contudo, nem tudo são rosas-de-porcelana nesta história.
Todos os grupos, independentemente do seu cariz, mais tarde ou mais cedo têm os seus reveses, por imprevistos, desmotivação ou apenas por vicissitudes da vida. Tudo normal, até para um grupo tido por muitos como a maior referência do país, é a vida a ser vida.

Ao longo dos meses, em frequentes reuniões no terreiro da Formiguinha com o Manuel, o Álvaro, o Hortêncio e o Amâncio – direção do grupo, vamos percebendo que urge fazer mudanças no grupo pois este legado não pode parar. A sua importância é demasiado grande para se perder.

Assim, um dos grandes desafios, sobretudo para um grupo tão antigo e com tanta história, é saber ajustar-se aos tempos que correm pois o tempo não pára.

Ao perceber os principais desafios do grupo, lutamos em várias frentes. Debatemos, criamos, inovamos, pensamos diferente e tentamos, com a bagagem do passado, responder aos desafios do presente, projetando o futuro.

Neste momento, para além de batalharmos para formalizar o grupo como associação, damos os primeiros passos de um regulamento interno que ajudará à sustentabilidade e funcionamento do grupo a longo prazo.

Na verdade, o que se pede a este grupo é que seja como a sua congénere que opera incansavelmente na mãe-natureza: a formiga.

Para isso, basta que trabalhem, incessantemente, unidos para o bem do grupo, que tenham estrutura tal que aguentem qualquer queda e se consigam levantar e que consigam carregar um peso 50 vezes superior ao seu. Afinal, quanto pesa uma herança cultural deste tamanho?

André Patrício
São Tomé e Príncipe, 2016-2017