Testemunhos

Pontes em Missão

Uma imagem marca e traduz o início da minha Missão: Pontes. Esses primeiros tempos foram marcados pelas várias pessoas, grupos, movimentos e outras entidades que me foram apresentados, e pelos conselhos experientes, deixados por aqueles que entregavam nas minhas mãos este projeto, de como ligados todos estes “pontos” poderiam juntos trabalhar em prol do desenvolvimento.

Agora a caminhar para o final da Missão, percorrendo os vários projetos que os LD têm atualmente aqui em Benguela, apercebo-me que essa imagem esteve muito presente ao longo do ano, e ainda que seja um desafio difícil e paciente, pelo menos é visível essa intenção: criar pontes.

No projecto Epongoloko Lyukãy, a mudança da Mulher acontece cada vez que se assiste à construção de uma nova ponte. É como um caminho novo que se abre para que seja possível a passagem de novos conhecimentos, novas relações, novas oportunidades. E várias pontes podem ser desenhadas, em função das margens que queremos unir, das distâncias que são necessárias percorrer…

As pontes constroem-se, em menor escala, quando as mamãs do nosso projecto se disponibilizam como formadoras, de forma voluntária, para partilhar os seus conhecimentos e revelar assim os “segredos” dos seus negócios - sabão e artesanato&costura – a outras mulheres do bairro; ou quando o Centro Juvenil da Graça contrata como formadoras dos cursos que disponibiliza algumas da nossas senhoras. Mas também em maior escala, quando surgem oportunidades de estágio nas creches e hotéis da cidade; ou quando as senhoras do nosso bairro beneficiam de formações promovidas pela Direção Provincial da Família e Promoção da Mulher, trocas de experiência com outros grupos organizados de mulheres angolanas e se constroem assim novas parcerias.

Projeto Mudanca da Mulher

Tomo consciência que o papel do voluntário Leigo passa também por ser este instrumento que ajuda a unir os dois lados da margem para que haja de facto um desenvolvimento local e comunitário. Não se trata de ajudar a promover uma viagem apenas de uma margem à outra, mas sim ajudar a construir algo que permaneça mesmo após a nossa ausência, e que, de alguma forma, beneficie os dois lados da margem. Muito do nosso trabalho passa por conhecer para partilhar, trazer para levar, receber para dar.

Por vezes somos margem, a precisar de nos unir para chegar mais longe, outras vezes somos um parafuso desta ponte, para promover a união de outros e juntos construir. Mas nem só de parafusos se faz uma ponte. Aqui entram tantos que, a nível pessoal, institucional, ou empresarial, se sensibilizam com este trabalho da cooperação para o desenvolvimento e decidem criar pontes de generosidade e confiança com o Bairro da Graça.

Cada um vai construindo a sua ponte ao encontro da outra margem. Deus conta com as nossas pontes para podermos quebrar distâncias, destruir barreiras e preconceitos, e nos ligarmos uns aos outros como irmãos e filhos de um mesmo Pai.

Na sessão de avaliação e encerramento da 3º edição da formação promovida pelo projecto Epongoloko Lyukãy, a Mamã Jovita inspirou-me com esta ideia: “Se eu for pescar sozinha, vou levar comigo uma cana e vou pescar um peixe de cada vez. Mas se formos juntas, podemos pescar com rede e assim pescaremos muito mais!”

Joana Lagos
Benguela, 2016-2017