Testemunhos

A beleza da despedida

Tristeza. É a palavra que imediatamente me surge quando penso na despedida que se avizinha. É o sentimento que me assola a uma semana de regressar às origens. Felizmente, não vem só. Muitas são outras as palavras que, com enorme intensidade, me preenchem nesta fase da missão. Gratidão. Nostalgia. Entrega. Partilha. Conforto. Consolo. Felicidade. Divisão. Bênção. Surpresa. Confiança. Paixão. Fidelidade. Paz. Orgulho. Riqueza. Saudade. Amor.

Vim com a missão de, num caminho de aprofundamento da fé, servir os outros, através da gestão e coordenação do GAIVA – Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Activa no Bairro da Graça e da participação na Pastoral Universitária de Benguela através do acompanhamento do GUV – Grupo Universitário de Voluntariado. Tive oportunidade de trabalhar com pessoas únicas, de diferentes meios de um só país mas com algo em comum: a vontade de aprenderem mais e viverem com dignidade, por maiores que sejam as dificuldades e injustiças que enfrentam dia após dia. Pessoas estas que não desistem de esperar, que lutam, que muitas vezes puxam pelos que se parecem “encostar”, que não mostram medo, que são autênticos testemunhos de fé, que procuram conhecimento e que se envolvem pelas causas, que não perdem a esperança e que acreditam num mundo melhor quando tudo parece perdido.

Mesmo assim, há tanto trabalho ainda a ser feito e sinto-me tão tranquila por sentir o Julião e a Esperança, dois jovens incríveis e cheios de potencial que formam a equipa do GAIVA, muito capazes de levarem avante o projeto com o apoio dos Leigos para o Desenvolvimento e de todos os nossos parceiros sem os quais o projeto não faria sentido. Quanto aos jovens do GUV, acredito que o desejo de contribuírem para um mundo mais justo e com menor discriminação, será a alavanca para continuarem a levar a bom porto todas as atividades de voluntariado a que se propuserem.

Mas missão não foi só o GAIVA e o GUV. Foi também o simples estar e partilhar com a comunidade – miúdos e graúdos, zungueiras, motoristas e cobradores, comunidade religiosa, amigos, conhecidos e desconhecidos – do bairro e da cidade que tão bem me acolheu, tanto me deu e ensinou e onde também me sinto em casa. Hoje, um ano de missão, apesar de tão preenchido, parece pouco mas já dizia Fernando Pessoa que “o valor das coisas não está no tempo em que elas duram mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis, pessoas incomparáveis”. E quando dou por mim a pensar como é injusta e dolorosa a despedida, apercebo-me que também é a despedida que torna tudo tão mais intenso, vivido, valioso e saboroso e, por isso, quero acreditar nesta beleza que a despedida tem; uma despedida emocionante que afinal não nos separa mas nos une ainda mais e que traz com ela felizes reencontros.

Inspirada por alguém especial que me relembrou uma mensagem muito bonita que Antoine Saint-Exupéry transmite através da deliciosa história do Principezinho – “Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós” – e eternamente agradecida, despeço-me com a certeza de um volto já e de que vos vou levar comigo em toda a minha vida! Até já Portugal, país que me viu nascer, crescer e que me trouxe até aqui. Até breve Benguela minha, Benguela nossa! Estamos juntos.

Voluntaria Mariana Cadaveira

Mariana Cadaveira
Benguela, 2016-2017