Testemunhos

O meu Natal em Benguela

Sempre gostei do Natal.

Sou aquela pessoa que, mal acaba o verão começa a contar o tempo para o Natal. Gosto das músicas, das luzes e da magia que se vive nas ruas da cidade do Porto. Sou adepta assídua da manta, do sofá e dos filmes (sempre os mesmos) que passam na televisão nesta altura. Mas acima de tudo, o Natal para mim é família, paz, alegria, frio lá fora e um calor no coração ao qual nunca soube bem dar um nome.

Quando, antes de partir, falava às pessoas acerca da minha missão, era sobre isso que mais me perguntavam: “Então e o teu natal? Não vens cá? Como vai ser?”. “Diferente” dizia para mim mesma, sem querer pensar muito no assunto.

Na verdade, confesso que demorei a entrar no espírito. Algo não batia certo, não combinava o calor que se sentia, com os gorros de pai natal e os enfeites nas ruas, as músicas de natal que substituíam a habitual kizomba nas rádios das Hiaces, as festas de final de ano letivo que coincidiam com as festas de natal, mas principalmente não batia certo ser Natal, e não ter a minha família comigo.

Mas aos poucos, fui-me apercebendo da beleza, simplicidade e alegria com que este tempo é vivido cá e assim fui aprendendo. Aprendi, com as crianças da Casa do Gaiato, que é possível fazer um boneco de neve… com areia. Aprendi com as Irmãs Doroteias a viver verdadeiramente a alegria do nascimento de Jesus. Aprendi com as pessoas de Benguela o quanto as palmas e a dança são essenciais na missa do galo. Aprendi com o Gonçalo, a Rita e a Teresa, que uma manhã, uma tarde e outra manhã na cozinha pode ser tempo bem passado se for em comunidade, e que ao ter visitas da família de um de nós, matamos um bocadinho de saudades da nossa. E aprendi com a minha família que numa videochamada de apenas alguns minutos se consegue viajar até ao Porto, passar por Coimbra e regressar a Benguela.

E agora, quando falar às pessoas acerca da minha missão e me perguntarem “Então e o teu Natal? Como foi?” vou responder que foi diferente, sim, mas que acima de tudo foi família, paz, alegria, calor lá fora e um arder do coração que só pode vir de Deus.

Natal em Benguela

Marta Horta
Benguela, 2017-2018