Testemunhos

As minhas "Mulherzinhas"

Surge linda, qual personagem das histórias de além-mar. Senhorinha de vestido delicado, trança em arco no cabelo, porte miúdo em jeitos de garota, força de gigante num vulgo tão doce. Eis Gabi, outra vez linda. Vive em Ponta Baleia, na roça de Porto Alegre. Faz parte do Grupo de Mulheres, do grupo de produção de farinha de mandioca e do grupo de fabrico de sabão artesana1. Trabalha na capina da estrada, é agricultora em terreno próprio, cuidadora de casa, dos seus 5 filhos, esposa.

Executa as tarefas com gestos apressados, seguindo ligeirinha mas sempre suave. Junta gargalhadas com vida, descomplexadas, sentidas. Dança só para mim as danças da terra enquanto cumpre os afazeres. “Marisa gosta de dançar!”, diz em modo maroto.

Gabi Mulher Ponta Baleia

Ai como gosto! Gosto destes movimentos inatos, carregando em si a história de tempos idos, que nascem das entranhas, como que brotam da natureza. E como gosto de ti minha Gabi! Cantareja palavras em angolar e com graça toma o meu nome em melodia. Mesmo sem entender, fico feliz e cada dia vou pertencendo a esta gente. Não raras vezes trata-me por Catarina, a querida voluntária LD que acompanhava o projeto das mulheres no passado ano. Mas Gabi é assim mesmo, recebe-nos a todos de coração disponível.

Mexe o sabão ao lume com zelo, receita que transborda e suja o seu quintal. Gabi paciente, afrouxa o lume, retira os restos de madeira, bambu e côco e limpa o pedaço de ferro que também serve para fritar o peixe e a banana para o matabicho2. Com sorriso afável volta a mexer o sabão. A lição de esperança, resiliência e serenidade nas dificuldades escancara-se perante a espectadora que sou. “Para sair perfeito temos que fazer muitas vezes, não é assim memo?” É assim mesmo doce Gabi, como me enterneces e me inspiras a também continuar firme e fiel ao propósito que abracei, o grupo de Mulheres que me mostra como sou pequena no meio de mulheres tão fortes e determinadas, que sem desalento lutam para o sustento dos seus.

E nesta terra de encantos verdes, outras tantas Gabis, delicadas heroínas de especial valor. A Ina e a sua força serena, a doçura triste da Inância, o fulgor no olhar da Ita, a alegria infantil e sonora da Ciza, a bela Nina que me fala em silêncios. A Nha Margarida, 80 anos de vida e de lavouro em campo distante, meiguice e sorriso esforçado ao percorrer em passo firme a estrada sem findar.

E por tudo isto vou-me deixando conquistar, em suave deleite como a brisa amena que nos afaga em cada dia.

“Ama só Marisa.”3

Marisa Queirós
São Tomé e Príncipe, 2017-2018

[1] Projectos acompanhados pelos Leigos para o Desenvolvimento
[2] Pequeno-almoço
[3] “Só” - Expressão frequente em São Tomé, no sentido de simplificar e de agir sem pensar demasiado.