Testemunhos

Vamos à morte que a vida é certa

Parece estranho, não é? O ditado costuma dizer “vamos à vida que a morte é certa”. Para além de ser mais reconfortante saber que vamos à vida e não à morte. Mas quando ouvi este trocadilho pela primeira vez pela boca do Pe. Vasco Pinto Magalhães, sj pareceu-me que esta “morte” a que se referia não era uma morte vital, mas uma morte de vícios, de expectativas, de ilusões, de manias e teimosias interiores.

Foi por isso mesmo que comecei este meu testemunho, com este ditado não tão popular como o outro, mas mais cristão e mais desafiante. Sendo que foi isto a que fui chamada a viver aqui em missão e que tento concretizá-lo todos os dias. Se sou bem-sucedida, não sei… Talvez não tanto quanto queria, mas sou mexida e espicaçada a crescer sem dúvida.

Demorei sete meses a perceber que, na verdade, não sou eu que faço missão aqui, são as pessoas da Graça que são a missão em mim. Foi no contraste entre o que são as pessoas que sirvo e as expetativas que tinha que vivi tempos de frustração face a objetivos que não conseguia alcançar, a ideias que não aconteciam, a vontade de ver as mamãs do Epongoloko Lyukãy e os seus negócios crescer num tempo que não era o delas. Mas pelo discurso que vos deixo dá para perceber que o que está mal aqui é a conjugação do verbo na primeira pessoa, de estes ideais e expetativas estarem centrados no meu querer e não na vontade de as fazer descobrir o que querem para a sua vida.

Isto porque os seus ideais de vida prendem-se com o chegarem a ver todos os seus filhos vivos e a crescer saudáveis; de deixarem a casa arrumada e cuidada antes de saírem para ir vender à praça; de passarem pelo óbito de um familiar longínquo ou um amigo ou vizinho porque têm de chorar a morte dos que vão e consolar a vida dos que ficam. Porque, no final, o que importa na vida são as vidas que as preenchem, que as fazem sentir que valem na vida e não na morte.

E, por tudo isto, obrigada a todas! Por me fazerem ir à morte deste meu egocentrismo mimado, e sentir que aqui a vida é verdadeiramente certa. Obrigada por me fazerem valer na vida!

Voluntaria Teresa e Mama

Teresa Cruz
Benguela, 2017-2018