Testemunhos

Mais um dia ao serviço

São 6:30 e toca o despertador. Acordo ensonado e a tentar preparar-me para a minha semana de governação. Há que ir às compras e comprar bom peixinho para a semana. Antes de sair do quarto, paro para dizer bom dia ao Senhor e para me focar na Missão.

Adoro aquela confusão do Mercado do Kasseque! Lá vou ter com as mamãs1 do costume e regateio o preço do carapau… mais pelo prazer de brincar com elas do que pelos 100 kwanzas2 que acabo por poupar. Vou rápido para casa, deixo o peixe com a Mana Ju e, antes de sair, levo um abraço daqueles que sabe mesmo a mãe.

Saio e vou a pé pela cidade.

Goncalo a sair de casa para apanhar taxi para a Graca

Tenho um ATL para acabar de construir e há muita coisa a fazer. Encontro-me com o Engº Carlos para saber se podemos avançar com a canalização e vou ao Sr. Daniel para nos ajudar com as cofragens do muro. Depois apanho o táxi para a Graça. Chego e já o Salu, o Pascoal e o Laranjinha andam a levantar paredes. Dou dois dedos de conversa e ao longe oiço as crianças a chamar: Ronaldo! Cristiano! Gonçalves! Gonçaulo! Ao fim de 8 meses ainda não acertaram com o meu nome! Mas o que é que isso importa? Vêm a correr, abraçam-me com aqueles sorrisos… e já ganhei o dia! Está tudo a andar na obra e, por isso, antes de voltar para casa, passo na Pastelaria da Mamã Fátima e levo aqueles bolinhos que cuiam bué3!

É hora de almoço e quando cruzo a esquina da rua já me cheira a Mufete4! A Mana Ju está a grelhar o carapau e na mesa já está o feijão de óleo de palma, os legumes e o sumate5! Que maravilha de almoço! Ponho a conversa em dia com as manas e vou dormir a minha sestinha para recarregar baterias. Que bem que me sabe!

Depois de almoço, aproveito que há luz e net para lançar uns documentos da contabilidade da casa. Falta a luz e não há maka6! Há muito trabalho a fazer no Bairro. Lá vou eu de táxi, a deliciar-me com a paisagem africana, enquanto me refresco com o ventinho na cara e o cobrador me pede para emagrecer7. Vou ao Espaço Criança e enquanto a Naki e o Augusto me contam como está a correr a semana, vou saudando as crianças com muitos culis8. E fico por ali a aguardar pela Direção: a Teresa, o Prof. Clemente, o Sr. Vicente e o Chiquito chegam e é tempo de discutir alguns problemas da obra e do funcionamento do Espaço Criança. Antes de ir para casa, para a Oração Comunitária, ainda dá para ir ao GAIVA (Gabinete de Apoio à Inserção na Vida Ativa) desafiar a Marta para um joguinho de PES no Cyber ali ao lado. No fim de jantar vou com as manas para o Zona Mais jogar Eleven e comer uma paracuca9, enquanto vemos o Porto.

Volto para casa e deito-me. Abro o meu diário e agradeço a Deus tantas graças, tantas pessoas, tantos sentimentos… Peço-Lhe forças para esta Missão para a qual me sinto tão pequenino. E adormeço. Amanhã a Graça espera por mim.

Gonçalo Vaz Pedro
Benguela, 2017-2018

(1) mamãs – nome com que vulgarmente se trata uma mulher angolana mais velha
(2) kwanzas – moeda angolana
(3) cuiam bué – expressão angolana que significa: está a dar muito prazer
(4) Mufete – prato típico angolano
(5) sumate – salada avinagrada de tomate, pimento e cebola aos cubinhos
(6) não há maka - expressão angolana que significa: não há problema
(7) emagrecer – expressão usada pelos cobradores dos táxis angolanos para pedir às pessoas para se apertarem para caber mais um
(8) culis – saudação entre duas pessoas, em que uma pessoa bate com o seu punho no punho da outra
(9) paracuca – amendoim torrado em açúcar