Testemunhos

“Queres uma boleia?”

Desde pequenina que me lembro da minha avó dizer que não devia apanhar boleia de ninguém. Na verdade, ela dizia isto com medo do que o entrar no carro com um desconhecido poderia provocar em caminhos europeus. Aqui em S. Tomé, aposto que os avós dizem: “vê se consegues uma boleia”. Isto porque faz com que chegue de forma segura e mais rápida ao destino. Apesar de as frases serem contraditórias, na sua essência são iguais, a questão aqui não é a boleia, mas sim a preocupação e o amor por cada neto.

Desde o primeiro dia em S. Tomé que vejo crianças, adultos e graúdos a pedirem “bolêa!”1. Têm longas distâncias para fazerem e nem sempre existem transportes disponíveis. O mais curioso disto tudo, é que muitas vezes vejo crianças a pedirem boleia em sentido contrário. Fiquei surpreendida nas primeiras vezes que isto acontecia, mas fui percebendo que esta boleia em S. Tomé é muito mais do que um encurtar caminho, é muito mais do que uma forma rápida e cómoda de chegar ao destino, por isso a direção do caminho é o menos importante.

Boleia implica 3 ações: pedir, dar e caminhar juntos. Pedir, não significa necessariamente que não se consiga chegar. Não! Pedir, sem que isso impeça de continuar a caminhar e de chegar ao destino. Acho que é este o truque para a boleia da vida, sair de nós próprios e pedir, mesmo que seja a um desconhecido, uma pessoa diferente, perceber que ser autónoma também implica precisar dos outros e fazer pedidos, mas sem nos imobilizar.

E se se faz um pedido, há uma resposta da outra parte, o dar. Dar um dos lugares disponíveis do carro ou da Hiace2, mas também, dar algo que temos livre, que queremos ocupar com a presença dos outros. Dar tempo e espaço aos amigos para que ocupem, não só um assento, mas também uma companhia no caminho.

Entrada em Hiace

Caminhar juntos, trocar umas palavras dentro do carro, saber o destino, aproximar e saber a razão que o faz caminhar. É um encurtar distâncias, distâncias de quilómetros, de amizades de relações. Como diz a famosa frase: “Sozinho vou mais depressa, mas acompanhado vou mais longe”.

Muitas vezes peço boleia para Porto Alegre, uma das comunidade onde os Leigos para o Desenvolvimento trabalham, mas depois percebo que há 9 meses que estou em Porto Alegre, no meu porto, em casa, e de forma alegre, porque aqui é impossível ser de outra forma. E depois é confiar no Condutor.

Queres uma boleia?

Pia Ornelas
S. Tomé e Príncipe, 2017-2018

1 - Forma de pronunciar boleia em S. Tomé

2- Carrinha Toyota Hiace (9 lugares), transporte colectivo muito utilizado pelos santomenses.