Testemunhos

Histórias que contam histórias

Um dos projetos que me foi confiado durante este ano de missão foi contar a história do Bairro da Boa Morte (o “Bairro”) através da história de vida de alguns dos seus moradores. Com a intenção de, por um lado, potenciar o espírito comunitário e identidade do Bairro junto da comunidade local e, por outro lado, promover o mesmo fora deste, pretendendo-se criar uma exposição itinerante das histórias recolhidas, que possa ser apresentada não só no Bairro, mas também em diversos locais da cidade.

A Boa Morte é um Bairro heterogéneo, no qual diversas realidades se cruzam formando uma identidade atípica, mas especial. É a diversidade que nos cativa e desafia no trabalho de desenvolvimento comunitário que os Leigos para o Desenvolvimento se dedicam desde 2011. Aqui encontramos pessoas de diferentes origens; famílias que vivem na Boa Morte há várias gerações e outras tantas recentes, que se mudaram para o bairro da periferia da Cidade Capital à procura de melhores condições de vida; pessoas que não mudariam de bairro ainda que pudessem escolher viver em qualquer outro local, enquanto outras se descrevem desiludidas pelas condições em que o mesmo se encontra, ou por degradação ou por desajuste de expectativas; umas com rendimentos mensais acima da média santomense e outras vizinhas cuja preocupação diária é arranjar comida para o próprio dia; pessoas que tiveram a oportunidade de prosseguir os estudos e atualmente ocupam cargos de influência no país e outras cujas dificuldades financeiras ou outras situações (como, por exemplo, a gravidez precoce) os fizeram abandonar a escola desde cedo.

Foi neste panorama, cativadas pela diversidade, que a Maura – uma jovem santomense que tem sido a minha melhor companhia no serviço a esta comunidade – e eu iniciámos a empreitada de desenhar o modelo pretendido e começar a recolha das histórias. Não sabíamos bem como atacar o desafio mas a simpatia e simplicidade com que a Maria de Lurdes, a Asi, a Odete, a Celma, o Mano, o Wander e o João nos abriram as portas de sua casa para partilharem connosco, e um dia com todos, a história da sua vida, desarmou-nos.

Cada um deles, através da sua história, conta-nos a história deste Bairro. Talvez um dia, quando alguém contar a sua história de vida e, bem assim, mais um bocadinho da história do Bairro da Boa Morte, que se escreve a cada dia, em silêncio, conte também o que foi a passagem dos Leigos para o Desenvolvimento por aqui! Também eu guardo na minha história um bocadinho da história da Boa Morte.

Historias que contam historias

Constança Nunes
S. Tomé e Príncipe, 2017-2018